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Stress de exame e perturbação de ansiedade

O coração acelera, as mãos suam, a cabeça fica em branco. Faltam dez minutos para o teste de Química. Toda a gente sente isto. A pergunta a que este artigo responde: quando deixa de ser stress normal e passa a ser algo a que um médico chama perturbação de ansiedade.

08/05/2026 6 min
Adolescente sentada na carteira da sala de aula com o manual fechado, a olhar pela janela antes do teste.
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O coração bate forte, as mãos suam, a cabeça fica em branco. Faltam dez minutos para o teste de Química. Toda a gente sente isto. A pergunta a que este artigo responde é a que nunca se consegue procurar bem no Google: quando é que o stress deixa de ser stress e passa a ser algo a que um médico chama perturbação de ansiedade?

TL;DR

  • O stress antes de um teste é universal. Tem o pico 10 a 30 minutos antes, desaparece poucas horas depois.
  • A perturbação de ansiedade não é um acontecimento, é um estado. Maioria dos dias, duas semanas ou mais, a passar para fora da escola.
  • O GAD-7 é a escala de rastreio padrão. Pontuação de 10 ou mais = vale a pena falar com alguém.
  • Cerca de 1 em cada 5 adolescentes cumpre critérios de perturbação de ansiedade antes dos 18 anos.
  • Não é fraqueza. O cérebro adolescente está, por desenho, mais reactivo do que o adulto.

O que é normal antes de um teste

O teu sistema nervoso está a fazer exactamente aquilo para que evoluiu. Um teste é, para o cérebro, uma situação de risco elevado, lida como ameaça (o mesmo circuito que respondia “é um leão?” responde hoje “estudei o suficiente?”). A amígdala dá o alarme, o hipotálamo activa as suprarrenais e em segundos tens mais cortisol e adrenalina no sangue. A frequência cardíaca sobe, a respiração acelera, o sangue afasta-se do estômago para ir aos músculos. Daí o famoso aperto.

A reacção não é discreta. Mas também não é doença. Revisões de fisiologia do stress (entre outras, McEwen 2007 sobre alostase) descrevem isto como adaptação correcta em tempo real. O problema seria não acontecer.

O que costuma ser típico:

  • frequência cardíaca e respiração mais rápidas antes e durante o teste,
  • mãos suadas, boca seca, aperto no estômago,
  • dificuldade em adormecer na noite anterior,
  • mãos a tremer ao pegar na esferográfica.

O ponto-chave: tudo isto passa quando o teste acaba. Ao jantar voltas a sentir-te tu. Talvez aliviada/o, talvez chateada/o com a pergunta 14, mas o corpo regressa ao normal.

Quando o stress passa a linha

O GAD-7 (Generalised Anxiety Disorder 7-item scale) foi desenhado pela equipa de Spitzer em 2006 precisamente para captar as situações em que a ansiedade já não está agarrada a um único acontecimento. Pergunta sobre as últimas duas semanas. Cada item é pontuado de 0 (nenhum) a 3 (quase todos os dias):

  1. sentir-se nervoso, ansioso ou no limite,
  2. não conseguir parar nem controlar a preocupação,
  3. preocupar-se demasiado com várias coisas,
  4. dificuldade em relaxar,
  5. tanta inquietação que custa estar sentado,
  6. irritar-se com facilidade,
  7. medo de que algo de mau vá acontecer.

Total: 0 a 21. Os pontos de corte que Plummer 2016 confirmou na meta-análise de 12 estudos:

PontuaçãoBandaO que sugere
0–4MínimaNada que peça acção
5–9LigeiraObserva o que acontece no próximo mês
10–14ModeradaAqui começa a fazer sentido falar com alguém
15–21GraveTratamento activo recomendado

O corte de 10 capta cerca de 89% das pessoas que, depois de uma entrevista clínica, cumprem critérios de perturbação de ansiedade generalizada. É um rastreio, não um diagnóstico. De cada 100 pessoas com 10 ou mais, cerca de 30 a 50 recebem diagnóstico formal depois da avaliação. Isto não torna o resultado vazio: o resultado abre a conversa, e o diagnóstico vive na conversa.

O sinal que conta mais do que o número: a ansiedade está presente na maioria dos dias, durante duas semanas ou mais, e abrange mais do que uma coisa? Esse padrão é o sinal de cruzar a linha.

Porque é que adolescentes pontuam mais alto do que adultos — e isso não é defeito

O cérebro adolescente está em reorganização estrutural até por volta dos 25 anos. A amígdala, que detecta ameaças, amadurece antes do córtex pré-frontal, que diz “calma, isto não é perigoso”. O desfasamento é real e medível. Casey 2008, em Trends in Cognitive Sciences, traçou as curvas e localizou a maior distância entre os 13 e os 17 anos.

Na prática: quando o teu pai de 38 anos diz “respira fundo, é só um teste”, não está a ser injusto. Ele tem em pleno funcionamento um circuito de regulação que tu ainda não tens em força máxima.

Os números populacionais acompanham a biologia. Polanczyk 2015 no Journal of Child Psychology and Psychiatry, meta-análise com dados de 41 países, encontrou prevalência anual de perturbações de ansiedade na infância e adolescência em torno de 6,5%. A prevalência cumulativa antes dos 18 anos é claramente mais alta, perto de 1 em 5. Em Portugal, o Programa Nacional para a Saúde Mental da DGS aponta a saúde mental dos adolescentes como uma das prioridades de saúde pública desta década.

Se tens um GAD-7 alto — não és caso raro. És caso comum.

O que fazer — três passos concretos

  1. Faz a escala honestamente. O GAD-7 está aqui e corre no teu navegador. Duas semanas, sete perguntas, dois minutos. Anota a banda.
  2. Fala com uma pessoa. Pai, mãe, psicólogo escolar, médico de família, irmã ou irmão mais velho — escolhe aquela com quem custa menos começar. A primeira conversa conta mais do que escolher a pessoa “certa”. A NICE CG113 recomenda que o primeiro contacto de um adolescente seja a medicina geral e familiar ou os serviços de saúde escolar.
  3. Se a pergunta 9 do PHQ-9 for diferente de zero — ou seja, surgiram pensamentos de auto-agressão ou de seria melhor não estar cá — liga hoje. SOS Voz Amiga 213 544 545 (16:00 às 24:00). Telefone da Amizade 228 323 535 (16:00 às 23:00). SNS 24: 808 24 24 24, com encaminhamento para a saúde mental. Em risco imediato — 112. Não precisas de estar “em crise activa” para ligar. Estes números são para o dia em que a pergunta 9 deixa de ser zero.

Vale a pena lembrar

O stress antes de um teste é universal e útil. A perturbação de ansiedade é frequente e tratável. Os dois são reais. Nenhum é fraqueza, nenhum se “aguenta calado”. O GAD-7 não dá diagnóstico — mas um resultado de 10 ou mais significa que vale a pena conversar, e nada nessa conversa te fecha em rótulo nenhum. Podes falar uma vez e decidir que não acontece mais nada. O primeiro passo não tem de ser o último.

Se a época de testes é o gatilho e o resto da tua vida está bem, isso é informação. Se a época de testes só faz subir o volume de um zumbido constante, também é informação. As duas merecem resposta a sério, não um “toda a gente passa por isto”.

Perguntas frequentes

Em que é que o stress de exame se distingue da ansiedade?
O stress antes de um teste tem o pico 10 a 30 minutos antes do toque e desaparece poucas horas depois do teste terminar. A reacção do corpo (frequência cardíaca acelerada, mãos suadas, aperto no estômago) é o sistema nervoso a fazer aquilo para que foi feito. Uma perturbação de ansiedade é um estado, não um acontecimento: está presente na maioria dos dias durante pelo menos duas semanas e estende-se para fora do exame, ao sono, à comida, aos amigos. Duração e alcance são as diferenças práticas.
O GAD-7 dá um diagnóstico?
Não. O GAD-7 é uma escala de rastreio, não um diagnóstico. Um resultado de 10 ou mais significa que estás na população onde vale a pena falar com o médico de família, com um psicólogo escolar ou com um especialista. Plummer 2016 (meta-análise de 12 estudos) mostrou que o ponto de corte 10 capta cerca de 89% das pessoas que cumprem critérios de perturbação de ansiedade generalizada após uma entrevista clínica. De cada 100 pessoas com 10 ou mais, cerca de 30 a 50 acabam por receber diagnóstico formal. A escala abre a conversa, o diagnóstico acontece na conversa.
Porque é que sinto mais ansiedade do que os adultos à minha volta?
Porque o teu cérebro está em obra até por volta dos 25 anos. A amígdala (a parte que assinala perigo) amadurece mais cedo do que o córtex pré-frontal (a parte que diz "calma, isto não é perigoso"). Casey 2008, em Trends in Cognitive Sciences, mostrou que a diferença é maior entre os 13 e os 17 anos. Na prática: reagires com mais força do que o teu pai de 38 anos é biologia, não fraqueza.
Qual é a frequência da ansiedade nos adolescentes?
Cerca de 1 em cada 5 adolescentes cumpre critérios de perturbação de ansiedade antes dos 18 anos. Polanczyk 2015, no J Child Psychol Psychiatry, uma meta-análise com dados de 41 países, situou a prevalência anual de perturbações de ansiedade na infância e adolescência em torno de 6,5%. A prevalência cumulativa antes da maioridade é claramente superior. É o grupo de perturbações mentais mais frequente nesta idade em todos os países com dados sólidos, incluindo Portugal.
O que distingue o GAD-7 do PHQ-9?
O GAD-7 mede ansiedade generalizada (7 perguntas, 0 a 21). O PHQ-9 mede depressão (9 perguntas, 0 a 27). Ambos perguntam sobre as últimas duas semanas. Costumam aplicar-se em conjunto porque ansiedade e depressão coexistem em cerca de metade dos casos no espaço de 12 meses. Quando o GAD-7 sai alto mas o quadro não fecha, o PHQ-9 explica muitas vezes o que está a acontecer.
Quando me devo preocupar com a ansiedade de um amigo ou amiga?
Olha para as mudanças, não para o conteúdo. Faltar a aulas que costumava gostar, sono interrompido ou ausente, comida evitada, retirar-se do grupo. Qualquer menção a auto-agressão ou ao "seria melhor não estar cá" é sinal para hoje, não para a próxima semana. SOS Voz Amiga 213 544 545 (16:00–24:00). Telefone da Amizade 228 323 535 (16:00–23:00). SNS 24: 808 24 24 24. Em risco imediato — 112.
O que significa um GAD-7 de 12?
Um resultado de 12 cai na banda moderada (10–14). Segundo a meta-análise Plummer 2016 (Gen Hosp Psychiatry), é o intervalo em que falar com o médico de família ou com o psicólogo escolar começa a fazer sentido. 12 não é um diagnóstico. Significa que os sintomas estão presentes na maioria dos dias das últimas duas semanas e são suficientemente visíveis para colocar apoio psicológico em cima da mesa. O Programa Nacional para a Saúde Mental recomenda intervenção psicológica nesta banda.
GAD-7 de 15 — devo procurar o médico?
Sim. Um resultado de 15 ou mais cai na banda grave (15–21). As recomendações internacionais (NICE CG113 e equivalentes) preconizam neste nível tratamento activo: terapia cognitivo-comportamental (TCC), medicação (ISRS/ISRSN) ou a combinação. O primeiro contacto é o médico de família ou directamente um psiquiatra. Esperar "que passe" com 15+ estatisticamente não compensa. Sem tratamento, a perturbação de ansiedade generalizada dura em média 4 a 7 anos (NIMH).
A pergunta 9 do PHQ-9 não é zero — o que fazer hoje?
Telefonar hoje, não para a semana. Qualquer resposta diferente de zero no item 9 (pensamentos de auto-agressão ou de "seria melhor não estar cá") é um sinal clínico para o próprio dia, ainda que pareça pequeno. Não precisas de estar "em crise activa" para ligar. SOS Voz Amiga 213 544 545 (16:00–24:00). Telefone da Amizade 228 323 535 (16:00–23:00). SNS 24: 808 24 24 24. Internacional: findahelpline.com. Em risco imediato — 112.
Posso ter perturbação de ansiedade com GAD-7 baixo?
Sim, embora seja raro. O GAD-7 mede especificamente a ansiedade generalizada e tem sensibilidade de cerca de 89% no corte 10 (Plummer 2016). Um resultado baixo pode esconder outras perturbações ansiosas: fobia social (escalas LSAS ou SPIN), perturbação de pânico (PDSS), perturbação obsessivo-compulsiva (OCI-R), perturbação de stress pós-traumático (PCL-5). Se o dia a dia está difícil apesar de um GAD-7 baixo, descreve os sintomas concretos ao médico. Ele escolherá o questionário adequado.
Com que frequência repetir o GAD-7?
Em tratamento activo, os clínicos repetem o teste a cada 2 a 4 semanas para acompanhar a resposta. Fora de tratamento, faz sentido perante mudanças marcantes (época de exames, fim do ano lectivo, mudança de casa, luto) ou quando passaram 6 a 12 meses desde a última medição. Preencher todos os dias não ajuda. As variações naturais do humor de um dia para o outro acrescentam ruído e escondem o sinal.

Fontes

  1. A brief measure for assessing generalized anxiety disorder: the GAD-7 — Spitzer RL, Kroenke K, Williams JB, Löwe B — Archives of Internal Medicine (2006) [peer-reviewed]
  2. Screening for anxiety disorders with the GAD-7 and GAD-2: a systematic review and diagnostic meta-analysis — Plummer F, Manea L, Trepel D, McMillan D — General Hospital Psychiatry (2016) [peer-reviewed]
  3. The adolescent brain — Casey BJ, Jones RM, Hare TA — Trends in Cognitive Sciences (2008) [peer-reviewed]
  4. Annual Research Review: A meta-analysis of the worldwide prevalence of mental disorders in children and adolescents — Polanczyk GV et al. — Journal of Child Psychology and Psychiatry (2015) [peer-reviewed]
  5. Programa Nacional para a Saúde Mental — Direção-Geral da Saúde (DGS), Ministério da Saúde de Portugal [government health body]
  6. SOS Voz Amiga — linha de apoio emocional — SOS Voz Amiga, Portugal (213 544 545) [government health body]