mental health
Stress de exame e perturbação de ansiedade
O coração acelera, as mãos suam, a cabeça fica em branco. Faltam dez minutos para o teste de Química. Toda a gente sente isto. A pergunta a que este artigo responde: quando deixa de ser stress normal e passa a ser algo a que um médico chama perturbação de ansiedade.
O coração bate forte, as mãos suam, a cabeça fica em branco. Faltam dez minutos para o teste de Química. Toda a gente sente isto. A pergunta a que este artigo responde é a que nunca se consegue procurar bem no Google: quando é que o stress deixa de ser stress e passa a ser algo a que um médico chama perturbação de ansiedade?
TL;DR
- O stress antes de um teste é universal. Tem o pico 10 a 30 minutos antes, desaparece poucas horas depois.
- A perturbação de ansiedade não é um acontecimento, é um estado. Maioria dos dias, duas semanas ou mais, a passar para fora da escola.
- O GAD-7 é a escala de rastreio padrão. Pontuação de 10 ou mais = vale a pena falar com alguém.
- Cerca de 1 em cada 5 adolescentes cumpre critérios de perturbação de ansiedade antes dos 18 anos.
- Não é fraqueza. O cérebro adolescente está, por desenho, mais reactivo do que o adulto.
O que é normal antes de um teste
O teu sistema nervoso está a fazer exactamente aquilo para que evoluiu. Um teste é, para o cérebro, uma situação de risco elevado, lida como ameaça (o mesmo circuito que respondia “é um leão?” responde hoje “estudei o suficiente?”). A amígdala dá o alarme, o hipotálamo activa as suprarrenais e em segundos tens mais cortisol e adrenalina no sangue. A frequência cardíaca sobe, a respiração acelera, o sangue afasta-se do estômago para ir aos músculos. Daí o famoso aperto.
A reacção não é discreta. Mas também não é doença. Revisões de fisiologia do stress (entre outras, McEwen 2007 sobre alostase) descrevem isto como adaptação correcta em tempo real. O problema seria não acontecer.
O que costuma ser típico:
- frequência cardíaca e respiração mais rápidas antes e durante o teste,
- mãos suadas, boca seca, aperto no estômago,
- dificuldade em adormecer na noite anterior,
- mãos a tremer ao pegar na esferográfica.
O ponto-chave: tudo isto passa quando o teste acaba. Ao jantar voltas a sentir-te tu. Talvez aliviada/o, talvez chateada/o com a pergunta 14, mas o corpo regressa ao normal.
Quando o stress passa a linha
O GAD-7 (Generalised Anxiety Disorder 7-item scale) foi desenhado pela equipa de Spitzer em 2006 precisamente para captar as situações em que a ansiedade já não está agarrada a um único acontecimento. Pergunta sobre as últimas duas semanas. Cada item é pontuado de 0 (nenhum) a 3 (quase todos os dias):
- sentir-se nervoso, ansioso ou no limite,
- não conseguir parar nem controlar a preocupação,
- preocupar-se demasiado com várias coisas,
- dificuldade em relaxar,
- tanta inquietação que custa estar sentado,
- irritar-se com facilidade,
- medo de que algo de mau vá acontecer.
Total: 0 a 21. Os pontos de corte que Plummer 2016 confirmou na meta-análise de 12 estudos:
| Pontuação | Banda | O que sugere |
|---|---|---|
| 0–4 | Mínima | Nada que peça acção |
| 5–9 | Ligeira | Observa o que acontece no próximo mês |
| 10–14 | Moderada | Aqui começa a fazer sentido falar com alguém |
| 15–21 | Grave | Tratamento activo recomendado |
O corte de 10 capta cerca de 89% das pessoas que, depois de uma entrevista clínica, cumprem critérios de perturbação de ansiedade generalizada. É um rastreio, não um diagnóstico. De cada 100 pessoas com 10 ou mais, cerca de 30 a 50 recebem diagnóstico formal depois da avaliação. Isto não torna o resultado vazio: o resultado abre a conversa, e o diagnóstico vive na conversa.
O sinal que conta mais do que o número: a ansiedade está presente na maioria dos dias, durante duas semanas ou mais, e abrange mais do que uma coisa? Esse padrão é o sinal de cruzar a linha.
Porque é que adolescentes pontuam mais alto do que adultos — e isso não é defeito
O cérebro adolescente está em reorganização estrutural até por volta dos 25 anos. A amígdala, que detecta ameaças, amadurece antes do córtex pré-frontal, que diz “calma, isto não é perigoso”. O desfasamento é real e medível. Casey 2008, em Trends in Cognitive Sciences, traçou as curvas e localizou a maior distância entre os 13 e os 17 anos.
Na prática: quando o teu pai de 38 anos diz “respira fundo, é só um teste”, não está a ser injusto. Ele tem em pleno funcionamento um circuito de regulação que tu ainda não tens em força máxima.
Os números populacionais acompanham a biologia. Polanczyk 2015 no Journal of Child Psychology and Psychiatry, meta-análise com dados de 41 países, encontrou prevalência anual de perturbações de ansiedade na infância e adolescência em torno de 6,5%. A prevalência cumulativa antes dos 18 anos é claramente mais alta, perto de 1 em 5. Em Portugal, o Programa Nacional para a Saúde Mental da DGS aponta a saúde mental dos adolescentes como uma das prioridades de saúde pública desta década.
Se tens um GAD-7 alto — não és caso raro. És caso comum.
O que fazer — três passos concretos
- Faz a escala honestamente. O GAD-7 está aqui e corre no teu navegador. Duas semanas, sete perguntas, dois minutos. Anota a banda.
- Fala com uma pessoa. Pai, mãe, psicólogo escolar, médico de família, irmã ou irmão mais velho — escolhe aquela com quem custa menos começar. A primeira conversa conta mais do que escolher a pessoa “certa”. A NICE CG113 recomenda que o primeiro contacto de um adolescente seja a medicina geral e familiar ou os serviços de saúde escolar.
- Se a pergunta 9 do PHQ-9 for diferente de zero — ou seja, surgiram pensamentos de auto-agressão ou de seria melhor não estar cá — liga hoje. SOS Voz Amiga 213 544 545 (16:00 às 24:00). Telefone da Amizade 228 323 535 (16:00 às 23:00). SNS 24: 808 24 24 24, com encaminhamento para a saúde mental. Em risco imediato — 112. Não precisas de estar “em crise activa” para ligar. Estes números são para o dia em que a pergunta 9 deixa de ser zero.
Vale a pena lembrar
O stress antes de um teste é universal e útil. A perturbação de ansiedade é frequente e tratável. Os dois são reais. Nenhum é fraqueza, nenhum se “aguenta calado”. O GAD-7 não dá diagnóstico — mas um resultado de 10 ou mais significa que vale a pena conversar, e nada nessa conversa te fecha em rótulo nenhum. Podes falar uma vez e decidir que não acontece mais nada. O primeiro passo não tem de ser o último.
Se a época de testes é o gatilho e o resto da tua vida está bem, isso é informação. Se a época de testes só faz subir o volume de um zumbido constante, também é informação. As duas merecem resposta a sério, não um “toda a gente passa por isto”.
Perguntas frequentes
Em que é que o stress de exame se distingue da ansiedade?
O GAD-7 dá um diagnóstico?
Porque é que sinto mais ansiedade do que os adultos à minha volta?
Qual é a frequência da ansiedade nos adolescentes?
O que distingue o GAD-7 do PHQ-9?
Quando me devo preocupar com a ansiedade de um amigo ou amiga?
O que significa um GAD-7 de 12?
GAD-7 de 15 — devo procurar o médico?
A pergunta 9 do PHQ-9 não é zero — o que fazer hoje?
Posso ter perturbação de ansiedade com GAD-7 baixo?
Com que frequência repetir o GAD-7?
Fontes
- A brief measure for assessing generalized anxiety disorder: the GAD-7 — Spitzer RL, Kroenke K, Williams JB, Löwe B — Archives of Internal Medicine (2006) [peer-reviewed]
- Screening for anxiety disorders with the GAD-7 and GAD-2: a systematic review and diagnostic meta-analysis — Plummer F, Manea L, Trepel D, McMillan D — General Hospital Psychiatry (2016) [peer-reviewed]
- The adolescent brain — Casey BJ, Jones RM, Hare TA — Trends in Cognitive Sciences (2008) [peer-reviewed]
- Annual Research Review: A meta-analysis of the worldwide prevalence of mental disorders in children and adolescents — Polanczyk GV et al. — Journal of Child Psychology and Psychiatry (2015) [peer-reviewed]
- Programa Nacional para a Saúde Mental — Direção-Geral da Saúde (DGS), Ministério da Saúde de Portugal [government health body]
- SOS Voz Amiga — linha de apoio emocional — SOS Voz Amiga, Portugal (213 544 545) [government health body]