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PHQ-9 explicado: quando uma fase ruim vira depressão clínica

Uma semana ruim não é depressão. Duas semanas de humor baixo, sono interrompido e perda de interesse já podem ser. O PHQ-9 é o questionário de nove perguntas que clínicos usam para traçar essa fronteira. Aqui está o que a sua pontuação realmente diz.

13/05/2026 7 min
Pessoa sentada perto da janela com uma xícara de café, olhando para fora, com luz suave da manhã.
Foto no Unsplash

Uma semana ruim não é depressão. Duas semanas de humor baixo, sono fragmentado e aquele peso que faz escovar os dentes virar um esforço — isso já pode ser ela. O Questionário sobre a Saúde do Paciente PHQ-9 (Patient Health Questionnaire) é a ferramenta de nove perguntas que clínicos no mundo todo usam para distinguir uma coisa da outra.

Este texto mostra o que cada faixa de pontuação significa de fato, para que serve o relógio das duas semanas e em que momento um número na tela deve virar uma ligação para o médico.

Em resumo

  • O PHQ-9 tem 9 perguntas alinhadas aos 9 critérios DSM-5 para episódio depressivo maior, pontuação total de 0 a 27.
  • Pontuação 10 ou mais é o limiar para avaliação clínica, confirmado em mais de 17 mil pacientes por Levis 2019.
  • Faixas: 0-4 mínima ou nenhuma, 5-9 leve, 10-14 moderada, 15-19 moderadamente grave, 20-27 grave.
  • A janela de duas semanas importa. O PHQ-9 pergunta sobre os últimos 14 dias — o mínimo definido pelo DSM-5 para um episódio depressivo.
  • A pergunta 9 (pensamentos de autolesão) age de forma independente da soma. Qualquer resposta acima de zero pede contato clínico no mesmo dia.
  • Para adolescentes de 13 a 17 anos, o corte sobe para 11 (Richardson 2010, Pediatrics).
  • Linha de apoio no Brasil: CVV 188, 24 horas.

O que é o PHQ-9 e de onde ele veio

Robert Spitzer e Kurt Kroenke publicaram o PHQ-9 em 2001 no Journal of General Internal Medicine. O objetivo era simples e prático: um rastreio de 9 perguntas que uma enfermeira da unidade básica pudesse entregar ao paciente na sala de espera, receber em menos de 3 minutos e usar para decidir se a consulta exigia uma conversa séria de saúde mental.

As perguntas seguem os 9 critérios DSM-IV para depressão maior, um a um. Cada item recebe de 0 (nenhuma vez) a 3 (quase todos os dias), referindo-se às duas últimas semanas. O total varia de 0 a 27.

O estudo original de Kroenke em 2001 comparou o PHQ-9 com a entrevista clínica estruturada em 6 mil pacientes de atenção primária e obstétrica. O corte de 10 captou 88% dos casos verdadeiros de depressão maior e excluiu 88% dos pacientes que não a tinham. Vinte anos depois, Levis 2019 no BMJ reuniu dados individuais de 58 estudos com 17.357 pacientes e confirmou o mesmo: para PHQ-9 ≥ 10, sensibilidade 0,88 e especificidade 0,85. O número se manteve por duas décadas.

O relógio das duas semanas

O questionário começa com: “Nas últimas 2 semanas, com que frequência você foi incomodado por algum dos seguintes problemas?”

Essas duas semanas não são arbitrárias. O DSM-5 exige que os sintomas se mantenham por pelo menos 2 semanas consecutivas para que se possa diagnosticar um episódio depressivo maior. O PHQ-9 está construído em torno desse piso. Uma semana de tristeza depois do fim de um relacionamento, uma segunda-feira pesada após um fim de semana mal dormido, alguns dias ruins depois de uma virose: nada disso é o que o questionário foi feito para medir.

Duas semanas também é onde a matemática da variação natural do humor deixa de explicar. A maioria das pessoas passa por alguns dias ruins por mês. Humor baixo persistente, alterações de sono persistentes, perda de interesse persistente por catorze dias seguidos: não é a mesma coisa.

O que significa cada faixa

Kroenke 2001 propôs as faixas hoje padrão, e Manea 2012 no CMAJ refinou-as por meta-análise:

PontuaçãoFaixaSignificado mais comum
0-4Mínima ou nenhumaDentro da variação típica de humor. Sem ação clínica.
5-9LeveHá sintomas, raramente exigem tratamento sozinho. Observar a tendência.
10-14ModeradaLimiar para entrevista clínica. Discutem-se opções de tratamento.
15-19Moderadamente graveTratamento geralmente indicado. Psicoterapia e/ou medicação.
20-27GraveTratamento ativo. Geralmente terapia combinada.

Essas faixas são estatísticas, não rótulos diagnósticos. Um 14 não significa “você tem depressão moderada”. Significa “os seus sintomas se agrupam do jeito que se agrupam na depressão moderada”. A entrevista, a história, a linha do tempo: é isso que define o que a pontuação representa para você.

A ABP destaca o mesmo em seus materiais para o público: o questionário é instrumento de rastreio, não de diagnóstico.

Pergunta 9: a que se desliga da soma

A nona pergunta é: “Pensamentos de que seria melhor estar morto ou de se machucar de alguma forma.”

Qualquer resposta acima de zero — mesmo “vários dias” — é tratada como sinal de segurança, independentemente do resto. Um total de 4 com 1 ponto na pergunta 9 não é conduzido como um 4 com 0. Kroenke 2001 montou assim de propósito, para que a ideação suicida não se diluísse no total dos outros itens.

Se você marcou acima de zero, há dois caminhos padrão:

  1. Contato no mesmo dia com clínico geral, psiquiatra ou com o terapeuta com quem você já se acompanha.
  2. Ou, se “hoje” parece pesado demais para encarar sozinho, ligue para o CVV — 188, serviço gratuito, sigiloso, 24 horas, em todo o Brasil. Há também o SAMU 192 em casos de risco imediato.

A questão não é que pensar dessas coisas signifique que algo vai acontecer. A maioria das pessoas que tem esses pensamentos em algum momento da vida nunca chega a agir. A questão é que essa é a pergunta que menos vale a pena guardar para depois.

Como uma faixa “moderada” se parece na prática

Um PHQ-9 de 12 (extremo inferior do moderado) corresponde a alguém que, nas duas últimas semanas:

  • Dorme mal na maioria das noites (pergunta 3 em 2 ou 3 pontos).
  • Sente cansaço quase todos os dias (pergunta 4 em 2 ou 3 pontos).
  • Perdeu parte do prazer em coisas que antes davam alegria (pergunta 1 em 2 pontos).
  • Nota o humor em baixa na maior parte dos dias (pergunta 2 em 2 pontos).
  • Tem dificuldade de concentração no trabalho ou nos estudos (pergunta 7 em 1 ou 2 pontos).
  • Perguntas 5, 6, 8 e 9 podem estar em 0 ou 1.

É essa combinação que o corte de 10 capta. Não é “todo mundo tem dias ruins”. É um período de duas semanas em que a maioria das caixinhas que o DSM-5 chama de episódio depressivo maior está pelo menos parcialmente marcada.

Quando o PHQ-9 engana

Três situações deslocam o resultado sem que o quadro clínico corresponda:

Luto agudo. Nas primeiras 2 a 6 semanas após uma perda importante, as pontuações sobem como em uma depressão primária. O DSM-5 retirou em 2013 a exclusão de luto, então o teste sozinho não corrige. A entrevista corrige.

Doença física com sintomas sobrepostos. Hipotireoidismo, anemia, apneia do sono, deficiência de vitamina B12: cada uma dessas situações pode elevar os itens somáticos (sono, energia, apetite) sem que o humor baixo seja primário. Um PHQ-9 alto em alguém sem exames básicos há um ano é um sinal para começar pelo hemograma e pelo TSH.

Uma semana ruim isolada em um ano calmo. A janela de duas semanas é piso, não teto. Se você fez o PHQ-9 na pior terça-feira de um ano de outro modo estável, pode tirar 12 hoje e 4 no mês que vem. Refazer o teste 2 ou 3 semanas depois separa uma quinzena ruim de um episódio depressivo.

O número do PHQ-9 é dado, não veredito.

O que fazer com cada faixa

  • 0-9. Sem ação além de notar. Se o contexto de vida (separação, perda de emprego, mudança de cidade) faz a pontuação parecer leve, esse contexto pesa mais do que o número.
  • 10-14. Marque consulta com clínico geral ou psiquiatra em 1 a 2 semanas. Leve a pontuação. Pergunte sobre encaminhamento para psicoterapia e se o seu caso sugere medicação.
  • 15-19. Marque dentro da semana. Seja honesto sobre a pergunta 9. A maioria dos clínicos nessa faixa recomenda terapia e uma conversa sobre antidepressivos (ISRS).
  • 20-27. Consulta na mesma semana. Se a pergunta 9 está acima de zero, contato no mesmo dia (médico ou CVV 188).

Se a sua pontuação é 10+ e há também sintomas de ansiedade, o instrumento parceiro é o GAD-7 de 7 perguntas. Muita gente que pontua positivo no PHQ-9 também pontua positivo no GAD-7. Faça os dois, leve os dois números para a consulta.

Você pode fazer o PHQ-9 aqui mesmo, no navegador, sem nada ser salvo: Teste PHQ-9 — rastreio de depressão.

Vale lembrar

Uma semana ruim não é a mesma coisa que depressão, e um PHQ-9 alto não é diagnóstico. Mas o questionário cumpre bem uma tarefa concreta: distinguir um humor que se atravessa sozinho de um humor que se beneficia de uma conversa com alguém treinado.

Dez ou mais, por duas semanas ou mais: é essa a linha. A pergunta 9, qualquer valor acima de zero: é uma linha à parte, e não espera pela soma. O resto é exatamente para o que serve uma consulta.

Perguntas frequentes

O que significa uma pontuação PHQ-9 de 12?
Doze fica na faixa moderada (10 a 14). A validação original de Kroenke 2001 no Journal of General Internal Medicine fixou o limiar de 10 como ponto a partir do qual se considera tratamento. Um 12 não é diagnóstico, mas é um sinal forte de que vale marcar consulta com clínico geral, psiquiatra ou psicólogo nas próximas uma ou duas semanas. A ABP segue as mesmas faixas em seu material para pacientes.
A partir de qual nota PHQ-9 é depressão?
A partir de 10. A meta-análise Levis 2019 no BMJ, com dados individuais de 17.357 pacientes em 58 estudos, confirmou que PHQ-9 ≥ 10 oferece o melhor equilíbrio entre sensibilidade (88%) e especificidade (85%) para depressão maior. Abaixo de 10 a pontuação ainda informa, mas raramente justifica sozinha uma entrevista diagnóstica.
Devo procurar um médico com PHQ-9 igual a 10?
Sim, principalmente se a pontuação está em 10 ou mais há mais de duas semanas. Dez é o limiar que diretrizes internacionais (APA, NICE) e o SUS no protocolo de saúde mental usam para recomendar avaliação clínica completa. O primeiro passo razoável é o clínico geral ou o psiquiatra na UBS. Se houver qualquer ideia de autolesão, ligue no mesmo dia para o CVV (188).
O que significa uma pontuação PHQ-9 de 20?
Vinte fica na faixa grave (20 a 27). Kroenke 2001 descreveu essa faixa como exigindo tratamento ativo, normalmente combinado: farmacoterapia mais psicoterapia. Uma pontuação dessa magnitude junto com resposta positiva na pergunta 9 (pensamentos de morte ou autolesão) é contato clínico no mesmo dia, não na semana seguinte. No Brasil, o CVV atende 24 horas pelo 188.
Uma pontuação PHQ-9 de 5 deve me preocupar?
Em geral não, mas a tendência importa. Cinco está na faixa leve (5 a 9). Uma pontuação que subiu de 2 para 5 em um mês é mais relevante que um 5 estável há um ano. Kroenke 2001 observa que pontuações leves preveem pior o prejuízo funcional do que pontuações de 10 ou mais — o 5 isolado raramente é motivo para iniciar tratamento.
Estou com PHQ-9 alto, mas no geral me sinto bem. O que isso quer dizer?
O PHQ-9 mede as duas últimas semanas. Se você preencheu numa fase especialmente ruim, o estado médio pode ser outro. Refaça o teste em 7 a 14 dias. Levis 2019 mostrou que a confiabilidade do PHQ-9 é maior quando ele é aplicado duas vezes num intervalo de duas semanas. Uma pontuação alta isolada que cai na segunda aplicação conta uma história diferente de uma que se mantém.
PHQ-9 ou Inventário de Beck — qual é melhor?
São duas ferramentas diferentes com desempenho comparável. A meta-análise Manea 2012 no CMAJ apontou sensibilidade de 88% e especificidade de 85% para o PHQ-9 com corte em 10. O Inventário de Beck (BDI-II) tem números semelhantes. O PHQ-9 é mais curto (9 itens contra 21), gratuito e alinhado ao DSM-5. O BDI é mais antigo, com licença, e levemente mais sensível a depressões com forte componente ansioso. Na atenção primária brasileira o PHQ-9 leva vantagem pela praticidade.
O PHQ-9 é confiável em adolescentes?
Sim, com uma ressalva. Richardson 2010 na Pediatrics validou o PHQ-9 em 442 adolescentes de 13 a 17 anos e encontrou sensibilidade de 89,5% com corte em 11 (um ponto acima dos 10 para adultos). Para a faixa de 13 a 17 anos, o limiar recomendado é 11. As perguntas continuam as mesmas; a linha de relevância clínica sobe um ponto, porque os escores médios de humor nessa faixa etária são um pouco mais altos.
Com que frequência refazer o PHQ-9?
A cada 2 a 4 semanas se você está monitorando resposta ao tratamento. Semanalmente, se está em terapia ativa com mudanças significativas dos sintomas. Kroenke 2001 e a APA tratam o PHQ-9 como medida longitudinal — a tendência ao longo de meses diz mais do que um número isolado. Repetir todo dia é ruído: as perguntas se referem às últimas duas semanas, então o valor não muda de forma significativa em 24 horas.
Luto pode fazer o PHQ-9 parecer depressão?
Sim, especialmente nas primeiras 2 a 6 semanas após uma perda importante. O DSM-5 retirou em 2013 a exclusão de luto, então uma pontuação elevada durante luto agudo lê-se numericamente igual a uma elevada por depressão primária. A ABP orienta que o clínico distinga humor baixo de luto e depressão maior se os sintomas persistirem além de 2 meses ou se aparecerem ideias na pergunta 9.
O que significa a pergunta 9 do PHQ-9 sobre pensamentos de autolesão?
A pergunta 9 questiona com que frequência, nas últimas duas semanas, surgiram pensamentos de "seria melhor estar morto ou de se machucar de alguma forma". Qualquer resposta acima de zero é tratada como sinal de segurança, independentemente do total. Kroenke 2001 desenhou assim de propósito. Se você marcou qualquer valor acima de zero, ligue no mesmo dia para o CVV (188) ou procure o seu médico.
O PHQ-9 também diagnostica ansiedade?
Não. O PHQ-9 mede depressão. Para a ansiedade, a ferramenta equivalente é o GAD-7 de 7 perguntas, dos mesmos autores (Spitzer e Kroenke). Muitas pessoas pontuam acima do limiar nos dois testes — Levis 2019 indica correlação de cerca de 0,7 entre PHQ-9 e GAD-7, ou seja, eles se sobrepõem mas não são intercambiáveis. Se você tem 10+ no PHQ-9 e sente que a ansiedade é o problema dominante, faça também o GAD-7 e leve os dois resultados à consulta.
Qual é a menor pontuação PHQ-9 que ainda pode ser depressão?
Cinco, em teoria. A faixa 5 a 9 é depressão leve; uma pequena parcela das pessoas nessa faixa preenche critérios DSM-5 para depressão menor. Mas o ponto de corte a partir do qual a pontuação sinaliza com confiabilidade a depressão maior é 10. Abaixo de 10 o resultado é sugestivo, não diagnóstico; quem decide é a entrevista clínica.
O HealthScorer guarda minhas respostas do PHQ-9?
Não. O PHQ-9 é calculado inteiramente no seu navegador. Nenhuma resposta, pontuação ou endereço de IP sai do seu dispositivo nem entra em qualquer banco de dados do HealthScorer. Não há conta, não há login, não há analytics atrelado às suas respostas. Os números que você vê são apenas seus.

Fontes

  1. The PHQ-9: validity of a brief depression severity measure — Kroenke K, Spitzer RL, Williams JB (Journal of General Internal Medicine, 2001) — Society of General Internal Medicine [peer-reviewed] PMID 11556941
  2. Accuracy of the PHQ-9 for screening to detect major depression: individual participant data meta-analysis — Levis B, Benedetti A, Thombs BD (BMJ, 2019) — BMJ Publishing Group [PubMed meta-analysis] PMID 30967483
  3. Optimal cut-off score for diagnosing depression with the Patient Health Questionnaire (PHQ-9): a meta-analysis — Manea L, Gilbody S, McMillan D (CMAJ, 2012) — Canadian Medical Association [PubMed meta-analysis] PMID 22184363
  4. Depressão — informação para o paciente — Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) [medical society]
  5. CVV — Centro de Valorização da Vida — 188 — Centro de Valorização da Vida [government health body]
  6. Evaluation of the Patient Health Questionnaire-9 Item for Detecting Major Depression Among Adolescents — Richardson LP, McCauley E, Grossman DC, et al. (Pediatrics, 2010) — American Academy of Pediatrics [PubMed review] PMID 20603258