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PHQ-9 explicado: quando uma fase ruim vira depressão clínica
Uma semana ruim não é depressão. Duas semanas de humor baixo, sono interrompido e perda de interesse já podem ser. O PHQ-9 é o questionário de nove perguntas que clínicos usam para traçar essa fronteira. Aqui está o que a sua pontuação realmente diz.
Uma semana ruim não é depressão. Duas semanas de humor baixo, sono fragmentado e aquele peso que faz escovar os dentes virar um esforço — isso já pode ser ela. O Questionário sobre a Saúde do Paciente PHQ-9 (Patient Health Questionnaire) é a ferramenta de nove perguntas que clínicos no mundo todo usam para distinguir uma coisa da outra.
Este texto mostra o que cada faixa de pontuação significa de fato, para que serve o relógio das duas semanas e em que momento um número na tela deve virar uma ligação para o médico.
Em resumo
- O PHQ-9 tem 9 perguntas alinhadas aos 9 critérios DSM-5 para episódio depressivo maior, pontuação total de 0 a 27.
- Pontuação 10 ou mais é o limiar para avaliação clínica, confirmado em mais de 17 mil pacientes por Levis 2019.
- Faixas: 0-4 mínima ou nenhuma, 5-9 leve, 10-14 moderada, 15-19 moderadamente grave, 20-27 grave.
- A janela de duas semanas importa. O PHQ-9 pergunta sobre os últimos 14 dias — o mínimo definido pelo DSM-5 para um episódio depressivo.
- A pergunta 9 (pensamentos de autolesão) age de forma independente da soma. Qualquer resposta acima de zero pede contato clínico no mesmo dia.
- Para adolescentes de 13 a 17 anos, o corte sobe para 11 (Richardson 2010, Pediatrics).
- Linha de apoio no Brasil: CVV 188, 24 horas.
O que é o PHQ-9 e de onde ele veio
Robert Spitzer e Kurt Kroenke publicaram o PHQ-9 em 2001 no Journal of General Internal Medicine. O objetivo era simples e prático: um rastreio de 9 perguntas que uma enfermeira da unidade básica pudesse entregar ao paciente na sala de espera, receber em menos de 3 minutos e usar para decidir se a consulta exigia uma conversa séria de saúde mental.
As perguntas seguem os 9 critérios DSM-IV para depressão maior, um a um. Cada item recebe de 0 (nenhuma vez) a 3 (quase todos os dias), referindo-se às duas últimas semanas. O total varia de 0 a 27.
O estudo original de Kroenke em 2001 comparou o PHQ-9 com a entrevista clínica estruturada em 6 mil pacientes de atenção primária e obstétrica. O corte de 10 captou 88% dos casos verdadeiros de depressão maior e excluiu 88% dos pacientes que não a tinham. Vinte anos depois, Levis 2019 no BMJ reuniu dados individuais de 58 estudos com 17.357 pacientes e confirmou o mesmo: para PHQ-9 ≥ 10, sensibilidade 0,88 e especificidade 0,85. O número se manteve por duas décadas.
O relógio das duas semanas
O questionário começa com: “Nas últimas 2 semanas, com que frequência você foi incomodado por algum dos seguintes problemas?”
Essas duas semanas não são arbitrárias. O DSM-5 exige que os sintomas se mantenham por pelo menos 2 semanas consecutivas para que se possa diagnosticar um episódio depressivo maior. O PHQ-9 está construído em torno desse piso. Uma semana de tristeza depois do fim de um relacionamento, uma segunda-feira pesada após um fim de semana mal dormido, alguns dias ruins depois de uma virose: nada disso é o que o questionário foi feito para medir.
Duas semanas também é onde a matemática da variação natural do humor deixa de explicar. A maioria das pessoas passa por alguns dias ruins por mês. Humor baixo persistente, alterações de sono persistentes, perda de interesse persistente por catorze dias seguidos: não é a mesma coisa.
O que significa cada faixa
Kroenke 2001 propôs as faixas hoje padrão, e Manea 2012 no CMAJ refinou-as por meta-análise:
| Pontuação | Faixa | Significado mais comum |
|---|---|---|
| 0-4 | Mínima ou nenhuma | Dentro da variação típica de humor. Sem ação clínica. |
| 5-9 | Leve | Há sintomas, raramente exigem tratamento sozinho. Observar a tendência. |
| 10-14 | Moderada | Limiar para entrevista clínica. Discutem-se opções de tratamento. |
| 15-19 | Moderadamente grave | Tratamento geralmente indicado. Psicoterapia e/ou medicação. |
| 20-27 | Grave | Tratamento ativo. Geralmente terapia combinada. |
Essas faixas são estatísticas, não rótulos diagnósticos. Um 14 não significa “você tem depressão moderada”. Significa “os seus sintomas se agrupam do jeito que se agrupam na depressão moderada”. A entrevista, a história, a linha do tempo: é isso que define o que a pontuação representa para você.
A ABP destaca o mesmo em seus materiais para o público: o questionário é instrumento de rastreio, não de diagnóstico.
Pergunta 9: a que se desliga da soma
A nona pergunta é: “Pensamentos de que seria melhor estar morto ou de se machucar de alguma forma.”
Qualquer resposta acima de zero — mesmo “vários dias” — é tratada como sinal de segurança, independentemente do resto. Um total de 4 com 1 ponto na pergunta 9 não é conduzido como um 4 com 0. Kroenke 2001 montou assim de propósito, para que a ideação suicida não se diluísse no total dos outros itens.
Se você marcou acima de zero, há dois caminhos padrão:
- Contato no mesmo dia com clínico geral, psiquiatra ou com o terapeuta com quem você já se acompanha.
- Ou, se “hoje” parece pesado demais para encarar sozinho, ligue para o CVV — 188, serviço gratuito, sigiloso, 24 horas, em todo o Brasil. Há também o SAMU 192 em casos de risco imediato.
A questão não é que pensar dessas coisas signifique que algo vai acontecer. A maioria das pessoas que tem esses pensamentos em algum momento da vida nunca chega a agir. A questão é que essa é a pergunta que menos vale a pena guardar para depois.
Como uma faixa “moderada” se parece na prática
Um PHQ-9 de 12 (extremo inferior do moderado) corresponde a alguém que, nas duas últimas semanas:
- Dorme mal na maioria das noites (pergunta 3 em 2 ou 3 pontos).
- Sente cansaço quase todos os dias (pergunta 4 em 2 ou 3 pontos).
- Perdeu parte do prazer em coisas que antes davam alegria (pergunta 1 em 2 pontos).
- Nota o humor em baixa na maior parte dos dias (pergunta 2 em 2 pontos).
- Tem dificuldade de concentração no trabalho ou nos estudos (pergunta 7 em 1 ou 2 pontos).
- Perguntas 5, 6, 8 e 9 podem estar em 0 ou 1.
É essa combinação que o corte de 10 capta. Não é “todo mundo tem dias ruins”. É um período de duas semanas em que a maioria das caixinhas que o DSM-5 chama de episódio depressivo maior está pelo menos parcialmente marcada.
Quando o PHQ-9 engana
Três situações deslocam o resultado sem que o quadro clínico corresponda:
Luto agudo. Nas primeiras 2 a 6 semanas após uma perda importante, as pontuações sobem como em uma depressão primária. O DSM-5 retirou em 2013 a exclusão de luto, então o teste sozinho não corrige. A entrevista corrige.
Doença física com sintomas sobrepostos. Hipotireoidismo, anemia, apneia do sono, deficiência de vitamina B12: cada uma dessas situações pode elevar os itens somáticos (sono, energia, apetite) sem que o humor baixo seja primário. Um PHQ-9 alto em alguém sem exames básicos há um ano é um sinal para começar pelo hemograma e pelo TSH.
Uma semana ruim isolada em um ano calmo. A janela de duas semanas é piso, não teto. Se você fez o PHQ-9 na pior terça-feira de um ano de outro modo estável, pode tirar 12 hoje e 4 no mês que vem. Refazer o teste 2 ou 3 semanas depois separa uma quinzena ruim de um episódio depressivo.
O número do PHQ-9 é dado, não veredito.
O que fazer com cada faixa
- 0-9. Sem ação além de notar. Se o contexto de vida (separação, perda de emprego, mudança de cidade) faz a pontuação parecer leve, esse contexto pesa mais do que o número.
- 10-14. Marque consulta com clínico geral ou psiquiatra em 1 a 2 semanas. Leve a pontuação. Pergunte sobre encaminhamento para psicoterapia e se o seu caso sugere medicação.
- 15-19. Marque dentro da semana. Seja honesto sobre a pergunta 9. A maioria dos clínicos nessa faixa recomenda terapia e uma conversa sobre antidepressivos (ISRS).
- 20-27. Consulta na mesma semana. Se a pergunta 9 está acima de zero, contato no mesmo dia (médico ou CVV 188).
Se a sua pontuação é 10+ e há também sintomas de ansiedade, o instrumento parceiro é o GAD-7 de 7 perguntas. Muita gente que pontua positivo no PHQ-9 também pontua positivo no GAD-7. Faça os dois, leve os dois números para a consulta.
Você pode fazer o PHQ-9 aqui mesmo, no navegador, sem nada ser salvo: Teste PHQ-9 — rastreio de depressão.
Vale lembrar
Uma semana ruim não é a mesma coisa que depressão, e um PHQ-9 alto não é diagnóstico. Mas o questionário cumpre bem uma tarefa concreta: distinguir um humor que se atravessa sozinho de um humor que se beneficia de uma conversa com alguém treinado.
Dez ou mais, por duas semanas ou mais: é essa a linha. A pergunta 9, qualquer valor acima de zero: é uma linha à parte, e não espera pela soma. O resto é exatamente para o que serve uma consulta.
Perguntas frequentes
O que significa uma pontuação PHQ-9 de 12?
A partir de qual nota PHQ-9 é depressão?
Devo procurar um médico com PHQ-9 igual a 10?
O que significa uma pontuação PHQ-9 de 20?
Uma pontuação PHQ-9 de 5 deve me preocupar?
Estou com PHQ-9 alto, mas no geral me sinto bem. O que isso quer dizer?
PHQ-9 ou Inventário de Beck — qual é melhor?
O PHQ-9 é confiável em adolescentes?
Com que frequência refazer o PHQ-9?
Luto pode fazer o PHQ-9 parecer depressão?
O que significa a pergunta 9 do PHQ-9 sobre pensamentos de autolesão?
O PHQ-9 também diagnostica ansiedade?
Qual é a menor pontuação PHQ-9 que ainda pode ser depressão?
O HealthScorer guarda minhas respostas do PHQ-9?
Fontes
- The PHQ-9: validity of a brief depression severity measure — Kroenke K, Spitzer RL, Williams JB (Journal of General Internal Medicine, 2001) — Society of General Internal Medicine [peer-reviewed] PMID 11556941
- Accuracy of the PHQ-9 for screening to detect major depression: individual participant data meta-analysis — Levis B, Benedetti A, Thombs BD (BMJ, 2019) — BMJ Publishing Group [PubMed meta-analysis] PMID 30967483
- Optimal cut-off score for diagnosing depression with the Patient Health Questionnaire (PHQ-9): a meta-analysis — Manea L, Gilbody S, McMillan D (CMAJ, 2012) — Canadian Medical Association [PubMed meta-analysis] PMID 22184363
- Depressão — informação para o paciente — Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) [medical society]
- CVV — Centro de Valorização da Vida — 188 — Centro de Valorização da Vida [government health body]
- Evaluation of the Patient Health Questionnaire-9 Item for Detecting Major Depression Among Adolescents — Richardson LP, McCauley E, Grossman DC, et al. (Pediatrics, 2010) — American Academy of Pediatrics [PubMed review] PMID 20603258